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31.7.17

Para uma clínica política

Em tempos violentos e de produção de desamparo, a aproximação cuidadosa de diferentes autores que nos auxiliem a pensar como tamanha dor vem se produzindo parece pertinente. Abaixo divulgação de curso que nos ajuda nessas reflexões. 

Na pena de Michel Foucault vimos que as relações sociais não acontecem no vácuo, mas são configuradas pelos “jogos de poder” que estruturam a práxis política. Com ele também aprendemos que o poder não é algo que se tem, mas algo que se exerce a partir de posições estratégicas. Neste sentido, o poder não se restringe às relações de dominação instituídas legalmente, mas opera para além delas. Podemos concebê-lo como “jogos estratégicos entre liberdades” para insistir que não há o poder, mas poderes que se atualizam como “jogos estratégicos que fazem com que uns tentem determinar a conduta de outros, ao que os outros tentam responder não deixando sua conduta ser determinada, ou determinando, em troca, a conduta dos outros” (Foucault, [1984] 2004, p. 285). Não percamos de vista, também, que a trama social é tecida pelos sujeitos imersos em relações de poder, mas igualmente pelos sujeitos imersos em efeitos de significação, ou seja, há uma implicação inextricável entre poder e saber: o poder produz saber. Lacan se aproximou da teoria da discursividade foucaultiana e nos mostrou que a “ordem dos discursos” pertence à dimensão simbólica, o lugar do Outro enquanto a dimensão na qual, para a psicanálise, o jogo político é jogado. Pensando em como o gozo circula no laço social e nas consequências políticas dessa circulação, Lacan articulou o campo da linguagem ao campo do gozo para criar sua teoria da discursividade e com ela nos mostrou que todo discurso tem como efeito um sujeito (Lacan, 1969-1970/1992). É visível que a proliferação de discursos totalitários produz efeitos éticos e políticos problemáticos no campo do sujeito, mas vale a aposta de que a potência disruptiva da pulsão pode produzir brechas democráticas na tessitura espessa do laço social contemporâneo.


21.7.17

A clínica e a roupa

O que faz uma psicóloga interessar-se por roupas, pela moda e pelas práticas do vestir?
Como a roupa e a moda poderiam se atravessar na escuta clínica?
Não são perguntas simples...
Podemos começar pensando que todos estamos vestidos, desde os primórdios a roupa está presente em nossas vidas, em nossa e outras tantas culturas.

19.7.17

Sobre roupas, desamparo, psicanálise, Foucault

"Os recentes movimentos de liberação sofrem por não poderem encontrar nenhum princípio em que basear a elaboração de uma nova ética." Foucault, 1983

Foucault falava aqui sobre sexualidade. Mas poderia estar falando sobre o desampado ou mesmo sobre nossa relação com o consumo. 

A partir da possibilidade do aumento do consumo no nosso país a roupa ganhou muito mais espaço. Pouco se discute o impacto do consumo de moda da economia e muito menos na subjetividade.

Na clínica psicanalítica, na consultoria de estilo, nas ruas, notamos a dificuldade das pessoas em lidar com o modo como passaram a consumir. O consumo como resposta para angústias não resolve, não possibilita entender o que produz esse sofrimento. 

Olhar para nosso desampado, seja como for, é dar chance para a invenção de novos modos de vida que não passem somente pelo consumo; entre eles a roupa. 

A liberdade do consumo de moda pode ser tão engessadora como usar um uniforme. Tudo podemos vestir, mas como vestir ao meu modo? O sentido de ética aqui é encontrar em nossas experiencias no mundo (que incluem o próprio guarda-roupa) algo que nos toquem com ele. 

26.1.10

DO PAPEL DA PSICOLOGIA EM SUA INTERSECÇÃO COM A MODA

Ou: Reflexões a parti da resenha de Nízia Villaça (A minha moda in 46 livros de moda que vocês não pode deixar de ler

Muito se ouve da Psicologia uma tarefa de "ressignificar" isso ou aquilo. Minha perspectiva profissional entende que material de estudo e atuação potente é o inconsciente; este dotado de potencial comunicador: o que se quer, ainda que não racional, virá à tona na vida das pessoas sob diversas "roupagens" (para não perder de vista os jargões deste blog). Entendo que a tal ressignificação é uma capacidade (a ser apliada em muito trabalho e esforço - sem entrar no mérito do trabalho, por ora) das pessoas de tornar uma emoção ligada à determinado sentido muito mais rica. Exemplo: detesto linho, nunca uso e não compro roupas desse tecido. Não importa o motivo, afinal ninguém vai passar a vida a pensar pq não usa determinado tecido para suas roupas. Entretanto, num momento de distração, ganho uma camisa de moderna e boa modelagem de uma amiga muito querida. Não há necessidade para que essa pessoa perceba que está agora usando uma fibra natural, mas de fato está.

Nízia usa o termo 'ressemantizar'. Gostei. Usar ou não determinado tecido pode apontar por uma ampliação ou ressemantização que o corpo (e os afetos, consequentemente) faz. Otimista que sou, resumiria como uma vontade desta pessoa superar restrições, pré-conceitos com o desconhecido. A mim não importa o que leva uma pessoa a odiar, mas sim o que pode fazê-la capaz de amar algo. Sim, sou uma 'psi' romântica...

Mas nada disso é fácil, é claro. O tal romantismo requer coragem. No exemplo a pessoa precisa estar disponível a encantar-se com o presente, com o afeto posto sobre o objeto escolhido. A amizade certamente conta, neste caso, mas infinitas são as posibilidades que contam para alguém se abrir à nova representação afetiva de um conteúdo. É necessária implicação com sua própria transformação.

Esses mecanismos, fenômenos (seja qual for sua nomeclatura) se engendram no cenário moderno: "Moda, mídia e cidade se cruzam em infindáveis cenários e suscitam um jogo complexo de construção/interpretação". Não é fácil. Nízia me sensibilizou, me pôs a pensar a partir de Laura Bovone (autora livro resenhado).

São muitos livros (46, se levar ao pé da letra) com que me sensibiizar. Nízia apontou-me um início.

p.s.: em um comentário Lisa solicitou que eu partilhasse minha leitura. não era este livo. ainda estou na dívida...

22.1.10

a partir da provocação de minha amiga priscila ribas






Nunca me considerei aventureira.
Este exercício exige desprendimento. Não sou fresca, mas tenho minhas frescuras. Manias que carregamos e nos deixam menos desprendidos. Mas depois de Einstein assumiu-se a perspectiva. Associado à proposta freudiana de análise como responsabilização do desejo, de nossa própria vida, passo à perceber este Projeto de Moda nada modesto.
Channel inventou a bolsa à tira-colo. Alguém (desconheço quem) aproximou nossos pertences ao corpo (costas) criando a mochila. Mas, para mim, nosso modo de vestir é canguru. Nosso estilo se compõe com o que somos. Nosso vestuário é nossa maneira de estar no mundo; a apresentação de nossa perspectiva do que a humanidade criou acerca de valores e conceitos.
Cada um de nós absorve o pudor de forma diferente. Foi esta invenção valorativa que nos impôs a roupa. Associada, é claro à proteção para as intempéries. Eu tenho, como todos, meus pudores. Entretanto quem me conhece sabe que sou um livro aberto: meus sentimentos são facilmente percebidos pelos que me rodeiam.
Para sustentar as primeiras idéias acima mostro meu closet: aberto. Não somente para este post, mas de fato não há portas, somente a do quarto.
E é assim que eu faço meu Brechó, é assim que me visto, assim que escrevo estas linhas: de um jeito quase canguru; como não posso carregar tudo, ao monos vejo tudo o que sou para simplificar as coisas. Não escondo nada.
Este é meu espírito aventureiro. Deixar à mostra minha relação com o vestir, com as pessoas, com o mundo.
A ilusão fica até engraçada: reparem quantas roupas brancas - minha fantasia de que é possível ser sempre tudo claro e simples. Conta outra...

foto 5: visão total (parede à esquerda "decorada" por meu filho qaundo era menor)
foto 4: a tal parede + mesa recém pintada + bolsinha de palha (uma das minhas muitas de mão) + a sapateira muuuito bagaceira de chinelos e tênis do meu Guri
foto 3: camisas + blusas + blusinhas...
foto 2: meu casaco predileto
foto 1: o vestido "consagrado" pelo blog
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