Mostrando postagens com marcador Donna Fashion Iguatemi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Donna Fashion Iguatemi. Mostrar todas as postagens

1.4.12

DONNA FASHION IGUATEMI - cobertura (???) por Helena Soares

bem, hoje infelizmente não poderei ir ao último dia do Donna Fashion Iguatemi então paro para fazer a retrospectiva que me prometi.

em primeiro lugar eu lamento mesmo não poder ir hoje. a relevância dessa informação já diz de como eu encaro a coisa toda: o evento é de moda. não está escrito se é moda feminina, moda isso ou aquilo; e o último dia se dirige à moda masculina e, principalmente infantil. a maioria do povo não fica com muita vontade de ver isso. eu adoraria assistir a gurizadinha na passarela! mas não vai dar...

aliás isso me leva a única crítica que farei de fato à organização do evento: a presença de crianças na platéia! lamento muito mesmo por vários motivos. os dois principais é a defesa de interesses: criança tem que ficar com criança em um lugar para brincar (e não para ocupar a passarela brincando de modelo antes dos desfiles), e os lugares ocupados pelas crianças deveriam estar recheados de ideias, críticas e observações de estilistas, professores de graduação, artistas, imprensa, etc. o DFI é um evento de tamanho razoável para comportar boa parte desse público. fica aqui o registro!

agora o que vi e o que não vi. mais uma vez lamento não poder estar a todos os desfiles. eu disse TODOS. lembrei do papo de banheiro com uma senhora que desdenhou meu interesse pelo som que vinha da passarela do Entremeios. estava ali para badalar, imagino. uma pena. mas isso só corrobora para a análise que fiz do último DFI que está aqui no blog. não me estenderei aqui nessa crítica pois Poá é Poá e isso merece uma análise mais complexa. escolhi falar do que fui fazer lá: ver os desfiles e ver gente que eu adoro.

na quarta-feira cheguei para o desfile de Tufi Duek. como sempre competentíssimo em luxo e inspiração, mas  confesso que queria mais. achei que o desfile de primavera/verão estava mais caprichado na linguagem, na continuidade. mas a presença do estilista foi muito digna. acho isso importante, essencial quando há loja na cidade. e quando não há é uma forma de reverenciar o interesse da população fashionista em desejar sua presença ali. 
isso me leva ao desfile de Carlos Miele.  onde está Miele? acho que não fui a única. achei total desrespeito o estilista se valer do gaudério (não vi gaucho) como inspiração e não devolver presencialmente isso. se não foi por motivo de doença não perdoo. gostei da linguagem: enxerguei o gaudério na maioria dos looks, achei as ankle boots muito apropriadas. de modo geral o luxo era a cara da Pe. Chagas, ou seja, a cara de uma parte de Poá: bacana. mas não vi coerência com o belo jeans wear: não dialogaram, foi um corte no desfile. a música foi outro corte: me senti na América Central e não num CTG. penso que, se Miele se jogasse mais daria uma puxada mais melancólica nas cores e encomendava uma milonga nostálgica tocada no violão. bah... cheguei a me arrepiar; já pensou? 
e tivemos ainda a Nara Lisbôa no Entremeios! uma feliz surpresa. essa sim justificável em sua ausência: mora em Paris e nos representa lá sem ganhar milhões (na verdade não tenho maiores informações, mas é o que a coerência passa) para ir e vir. uma linguagem única, lindo. não consegui ver de perto, pois estava cheio, então perdi detalhes, lamentei. achei um rico visual rústico, coerente, a cara da imagem da estilista. tão bonito quando a gente vê esse encontro! ainda na quarta-feira tive a felicidade pessoal de conhecer algumas pessoas: foi uma belo dia!

chega então a quinta-feira. faltei uma reunião de trabalho para ir ao DFI. o que tu tens a ver com isso, né? hahaha bem, por alguns motivos valeu a pena. infelizmente perdi os primeiros desfiles e foi impossível acessar passarela do Entremeios. primeiro assisti MOB. achei bacana. street wear de qualidade. uma sequencia de estilos baseados nas diferentes tendências para out/inv, organizado, coerente. não me tirou suspiros, mas me deixou com vontade de ver algumas peças de perto para conferir a proposta de qualidade em acabamento da marca, pois desconheço. 
aí veio meu filme predileto do fast fashion no DFI: Renner. O desfile do Renner costuma ter ótimo stylist, sempre dividido comercialmente pelas seções. Mas teve mais: uma coreografia de street dance superalegre, divertida e com stylist ótimo e depois a presenta do ator-celebridade Marcelo Cerrado. Achei tão querida a ideia da Renner de escolher ele especificadamente. Deu um caráter leve ao desfile, já que sua imagem ainda está colada a personagem cômico da última novela global. Sair do desfile da Renner é como sair de um filme do Spielberg (um Indiana Jones, por exemplo): dá um gás e, no caso do desfile, uma vontade de comprar várias pecinhas básicas que estão faltando no guarda-roupas (aquela camiseta de cor estratégica, uma camisa de seda branca que ainda não rolou, uma botinha  - pois a minha já se foi há horas - etc........). Todos sabem que não é meu estilo, mas a Renner é boa no que se propõe, a melhor.  
E neste dia ainda tivemos Victor Hugo com seus lançamentos: roupa. Vou me queimar para todo o sempre com a frase que virá (mas como sou um ser mutante, e que me responsabilizo pelo que profiro, vamos lá). Nunca (nunquinha) gostei de nenhuma bolsa da marca. Sempre achei com cara de fast fashion que quer ma não consegue crescer. Um pena, pois sempre se puxaram nos detalhes. O material e logo excessivamente exposto que nunca me atraíram. Continuo achando isso. As bolsas foram o pior do desfile. Também não amei o conjunto: achei que faltou linguagem. Mas... (e isso não é para amenizar a detonada que acabei de dar) gostei muitíssimo de várias (a maioria) das peças que foram apresentadas. Uma boa parte não tem absolutamente nada a ver comigo; entretanto foram criativas, coerentes ao estilo da marca e superiores na escolha do material em relação às bolsas. Tecidos nobres e belos: brocados, bordados, as sedas dos lenços (ah, os lenços... se um dia a marca me perdoar e quiser me presentear, por favor um lenço!! amei todos!!), a elegância particular de cada look, o acabamento. daria uma ótima vitrine, faltou unidade. pessoal, lembrem dos lenços! 
na sexta-feira consegui chegar correndo para a Mandi. gostei. não gosto da temática deserto estadunidense/texano, mas o de que importa o que gosta, não é? difícil manter um desfile inteiro de street wear com uma temática, mas a Mandi conseguiu. eu até queria mais. eu acrescentaria Tom Waits na trilha sonora; afinal, eu sempre quero mais. se seguir assim a Mandi vai longe. 
no Entemeios só consegui me estapear por um espacinho para ter a feliz visão do desfile do Déh Dullius, DZBL (Déh, o que representam as letras? fiquei curiosa ;-)) Amei. Não há absolutamente nada a ver comigo, mas eu amei. uma mistura de Herchcovitch com Samuel Beckett. e é sobre isso que eu gostaria de exaltar: DZBL é uma marca de competência infinita ao teatro. Déh poderia seguir toda a vida criando figurinos para o teatro e a dança que nunca se esgotariam as possibilidades. um ar de street wear de luxo com breves ares de Osklen, mas o drama dos palcos. taí um desfile que eu gostaria de ficar no backstage (aliás citarei essa lembrança da boca de quem saiu, mais além); ou nas coxias diriam os artistas dos palcos... eu prefeririam ter visto os olhos de Déh, seu brilho, mas isso é o menor em relação a todo o resto. make e cabelos excepcionais!
e chegamos ao sábado. cheguei no andamento de Jaqueline Lunkes, ganhahdora do último Next Generation. uma feliz supresa! o tema era o medo. me tocou bastante. a linguagem foi perfeita. acabamentos excelentes. a voz de Ktea da Eskola de Costura embalando o desfile: adorei. como boa moradora de Poá, localizei o medo de Jaqueline em um espaço/tempo portoalegrense que sequer a estilista deve ter vivido. isso não importa, afinal a coleção é daqui e a cultura nos cerca, é nos é passada sem percebermos. vi no desfile o medo da pequena burguesia portoalegrense do agito boêmico/cultural do Bom Fim na década de 1980. é como se escutasse Nico Nicolaievcky cantando Berlim - Bom Fim com uma voz rasgada. Vi os punks gaúchos, vi o algomerado em frente ao Bar João e no Zé do Passaporte. também vi Liegi Massi circulando como representante do cenário fashionista e muuuita gente louca e interessante que não dá para citar aqui. Não senti o medo que a pequena burguesia sentiria, senti uma vontade de tomar uma cerveja com os modelos e Jaqueline e ali na Lanchera (Lancheria do Parque) ou, quem sabe, um suco no pós-noite quando o lugar já tivesse aberto. Jaqueline não teve medo, ouvou, se divertiu, brincou. Notei isso também quando a vi emocionada recebendo os cumprimentos "dos seus" (eu fui lá abraçá-la e senti o carinho também). quero vê-la em muitas passarelas. torço para Poá absorvê-la. fica aqui a sugestão para Lili Má e Makumba a acolherem temporariamente. vai lá Guria, manda ver!
escolhi não assistir Trópico pois estava exausta e fiquei conversando com amigos e fui comer. aliás me rendeu outras informações para o próximo post. não dá para fazer tudo, infelizmente. 
comei, na passarela principal, pela C&A, a fast fashion multinacional. a megastore do fast fashion não é brasileira e tentou com a presença de modelo daqui (brasileira) dar uma identidade. ficou a cara do evento, mas nem nisso convenceu. Renata Kuerten foi quase ignorada pelo público de Poá/DFI que adora uma celebridade. O desfile teve todo o tempo um apelo ao fugaz e ao sexual. Mas isso não chegou a me tocar como linguagem. Faltou isso também. Sinto que Poá desejava ver sua parente dos Pampas internacionais e garota propaganda da potência: Gisele. estarei delirando? foi o que li do inconsciente da platéia. 
saí correndo para a passarela do Entremeios para ver o desfile (disparado) mais impressionante da noite: Carlos Bacchi Filho. para reafirmar a potência sem fim da serra gaúcha, o pupilo de Greice Antes confirmou tudo o que eu já havia visto de seu trabalho (lá na Pandorga e virtualmente também). sabe quando a moda se recuperou da necessárias simplicidade do pós-guerra e se fez plena em luxo de criatividade e materiais? Bacchi trouxe isso aliado a elegância que a gaúcha não sabe que tem. leve, excepcionalmente bem acabado, elegante, feminino. é tanta beleza que quase cheguei a desejar ser a musa de Bacchi (já pensou? hahaha se a gente não ri cai na fugacidade do fast fashion da qual o estilista jamais será - ainda bem). suas criações fazem emergir nas mulheres este devir de feminilidade que a pós-modernidade deixa líquida e escapando de nossos gestos. meu desejo é ver nas ruas a mulher que Carlos Bacchi imaginou: linda, feminina, inteira, potente. não posso deixar de falar do aspecto técnico que também fica na linguagem do desfile: uma imagem idílica do trabalho árduo e preciso das mãos que desenham, modelam, cortam, costuram, bordam. desejaria para Carlos Bacchi a possibilidade de fomentar o artesanato do bordado. explico: muitos falam da morte do artesanato gaúcho, da arte nas mãos; e o estilista inventa um jeito de demandar novos profissionais da área para dar conta de sua produção. ao final do desfile lhe cumprimentei e ele (educadíssimo) convidou a conhecer seu atelier em Caxias do Sul. imaginei tal atelier (num futuro próximo) com velhas bordadeiras corrigindo o ofício das mais jovens. sua aparição no final do desfile foi coerente: discreta, chique. no que toca meu lado consumista eu assumo: quero passar todos os meus aniversários dos próximos anos com um vestido de Carlos Bacchi Filho. 
a Saad, da Twin-Set assisti de fora. gostei de algumas coisas, mas as estampas achei desnecessárias. alguns conjuntinhos funcionaram outros não. o ton-sûr-ton funcionou bem. cada azul mais lindo. não posso opinar acerca da linguagem pois perdi informações. 
quase perdi Remodê de Mariana Pesce (uma loucura a fila para Glória Coelho). mas não dava para perder, né. é tudo a ver com meu trabalho de ampliação do tempo de uso das peças. adorei. tudo muito bem feito, planejado. pessoalmente quero falar com Mariana para que me conte a história de cada peça tal qual num Brechó de Troca. para mim toca assim a moda que reaproveita materiais: sempre quero saber mais, ouvir mais. e por falar em reaproveitamento, em herança, em seguimento, a escolha da duplinha transgeracional para tocar sucessos foi ótima. sobrenomes nobres do cenários músico Bela Leindecker (que não saiu do Piratini, mas é talentosíssima, hehehe) e Erick Endress são sempre uma delícia de escutar. Mariana vai receber uma visita minha em breve para papear sobre desejo, histórias e quem sabe eu levarei um chimas para brindar o encontro. me senti caminhando pela Eudoro Berlink ou qualquer rua do Mont Serrat e Moinhos. me senti usando um moletom e largarteado com a gurizada pensando no que eu faria quando acabasse o colégio: seguir pensando a moda? é... valeu Mariana! 
para terminar os desfiles Glória Coelho fez aparição diplomática em vídeo de dedicatória e agradecimento. confesso que preferiria tê-la ao vivo. não sou de tietar, mas dá vontade, né? e não só por isso, é óbvio. queria ter visto mais modelos. fiquei um pouco ressentida, minha alma sentiu um ar de primeira fila desprezada. algo como "podia ter nos oferecido mais, mas não foi possível, desculpe". sou fã da Glória, acho seu trabalho impecável e nem vou entrar no controverso (para mim) cenário brilhante familiar: é a maior matriarca da moda brasileira! gerou a maior promessa da moda nacional, etc etc. mas sou de Poá, não adianta, tá colado na pele. 

queria acrescentar o que Greice Antes e Milene Bordini me disseram sobre seus desejos futuros sobre o DFI:  quero assistir do backstage, disseram as duas. Talvez seja uma delícia mesmo. 
também queria que os desfiles usassem menos "bate estaca" na trilha. nesse aspecto a passarela do Entremeios dá de mil. aliás vale lembrar o sempre competente trabalho da Débora Tessler nesse cenário!
adorei os encontros, os papos, me incomodei com várias bobagens esperadas, mas não vale mais um parágrafo desse imenso texto.
valeu


30.3.12

DFI

todo mundo sabe que não sou blogueira, né? sem compromissos com prazos, postagens diárias, cobertura de eventos. mas... ainda assim queria poder falar de tudo o que vejo, opinar. tentarei escrever no domingo sobre o donna.

fica aqui o registro das minhas companhias prediletas nos dois primeiros dias: Milene Bordini e Ana Carolina Acom, amigas talentosas do Recortes da Moda e Modamanifesto, respectivamente.

25.3.12

para não dizer que não falei das flores

Tentarei fazer comentários nessa edição. Não prometo!

Donna Fashion Iguatemi / Outono-inverno 2012

PassarelaPrincipal

Quarta-feira, 28 de março

19h – Cavalera

20h – Spezzato

21h – Tufi Duek

22h – Carlos Miele
 
Quinta-feira, 29 de março

18h – Canal Sul

19h – FORUM

20h – MOB

21h – Renner

22h – Victor Hugo

Sexta-feira, 30 de março

18h – Matheus Dreher Bittencourt – Vencedor Next Generation

19h – M.Officer

20h – Mandi

21h – Colcci

22h – BOBSTORE

Sábado, 31 de março

18h – Jaqueline Lunkes  Matheus – Vencedor Next Generation

19h – Trópico

20h – C&A

21h – Twin-Set apresenta Saad

22h – Gloria Coelho
 
Domingo, 1º de abril

16h – Tyrol

17h – Lilica & Tigor

18h – Kids apresenta Animê

19h – VR Kids

Passarela Entremeios

Quarta-feira, 28 de março

20h20min – M. Placeres de Maurício Placeres

21h20min – Nara Lisbôa

Quinta-feira, 29 de março

20h20min – Jonathan Scarpini

21h20min – Eduardo Nipper

Sexta-feira, 30 de março

20h20min – Tarciso Bressan

21h20min – GZBL, de Déh Dullius

Sábado, 31 de março

20h20min – Carlos Bacchi Filho

21h20min – Remodê, de Mariana Pesce

Donna Fashion Iguatemi (ed. pri/ver 2012) e a Moda Portoalegrense - texto não enviado ao site Modamanifesto

Se você espera deste texto uma descrição dos fatos que ocorreram no evento, pare de ler agora mesmo.
Se você espera saber das histórias e looks que circularam no lounge, ficará desapontado.
Caso procure fotos exclusivas com as aparições de celebridades, não encontrará em meus textos.
Entretanto tenho muito a falar sobre o que senti no evento.
O Caderno Donna da Zero Hora, juntamente com a equipe de marketing do Shopping Iguatemi tem se esforçado nos últimos anos para nos proporcionar um espaço onde circulam, ao vivo, modelos que só poderíamos juntos em fashion weeks do eixo Rio-Sampa. E o esforço é recompensado. A curadoria fez escolha competente dos representantes para passarela: do fast fashion de Renner e C&A, passando pela moda fácil da Colcci até o primor de Clô Orozco, com sua Huis Clos e André Lima. Não cito todos pois isso é exemplificação.
Contratar a competentíssima Erika Palomino para auxiliar na construção conceitual do evento foi uma escolha coerente e feliz. Quando chegava em casa e assistia reprise dos desfiles pela TVCom tinha a felicidade de ouvir a tranquilidade que a jornalista tem para seus comentários. Mariana Kalil agregou.
Como todos sabem boa parte dos desfiles seguem com aparições de celebridades globais para exaltar o apelo efêmero da moda que se cola na novidade, no fresco, para manter o business muito bem, obrigada.
Não tenho circulação freqüente nas faculdades de moda e design, mas arrisco-me a dizer que o que foi visto na passarela do lounge no projeto Next Generation com organização de Débora Tessler foi enriquecedor (com pequenas e bizarras exceções – como tudo na vida) para os olhos da comunidade.
Mas o que fica para mim dos dias do evento é o sentido de tudo. Se a Zero Hora e o Shopping tem tamanha capacidade de “escutar” o que deseja o povo fashion da cidade porque essa mesma população não pede outras coisas?
O Donna Fashion é rico ao demonstrar o que Porto Alegre quer vestir e como quer vestir. A styling do Renner, por exemplo é sempre divertido e muito semelhante ao que se vê nas ruas da cidade. Os gritinhos histéricos da platéia ao ver Carlos Casagrande na passarela é tão coerente com a disputa por foto de celular com outras celebridades em eventos “não-fashion”. É só ver a quantidade de sites de “clicadas” em festas que se proliferam; fora os próprios jornais que aumentam suas páginas com fotos de “bonitos” na noite.
Porto Alegre é isso aí. Minha cidade não é mais nem menos do que cópia de editoriais de revista Cláudia e mocinha da novela das 20h (que nem mais às 20h é). Eu sei, dirão que sou pessimista. Me acho muito niilista. C’est la vie. Não vamos romantizar.
Minha questão é saber se um dia o slogan da Modamanifesto vai ficar obsoleto. “Moda além do óbvio” é algo para poucos sim. Pensar que moda é business e por isso precisamos de uma fashion week como quer ser o Donna Fashion é coerência. Entretanto a população pedir sempre por uma construção voltada a absorver somente o que vem do eixo Rio-Sampa é cansativo.
Particularmente me divirto muito nesses eventos. É oportunidade de ver colegas, sentir com os olhos o caimento de peças de Tufi Duek, tietar Clô Orozco (ela não precisa me aguentar, mas eu não resisti), poder assistir um desfile primoroso como da Kavietz (que na minha opinião deveria chegar rapidamente à passarela principal).
Clamo por ter permanentemente nas passarelas do evento: Greice Antes, Helen Rödel, Karen Raissa, Lili Má, À La Pucha e OH Moça. Alguns outros também (moda vintage vribra em Poá: porque não?). Mas o importante é lembrar que além do óbvio é um lugar longínquo para o consumidor de moda gaúcho.


15.4.10

considerações II


As pessoas me perguntam por que a invenção do Brechó de Troca; de onde eu tirei essa idéia. Para um momento da vida cotidiana para um projeto que, num primeiro momento não me faz enriquecer é de fato curioso. Minha resposta tem diversos vieses, mas o que quero ressaltar agora é meu desejo em trabalhar, sempre que possível, coletivamente. Explico: minhas escolhas como profissional “psi” se encontram com essa explicação. Entendo que cada um de nós é ligado ao outro por necessidade. Somos seres sociais por precisar uns dos outros e também por fazer de nossas tarefas executadas ou sob influência de terceiros bem melhores em qualidade. Os trabalhos individuais têm em si o traço do criador, mas todos sabem que o bom criador é aquele que captura o “espírito da época”, ou seja, que se permite afetar sobre o desejo social, sobre as necessidades coletivas antes mesmo da sociedade se aperceber disto. Quando busquei o espaço coletivo quis afirmar ser possível efetuar trocas em diversos níveis.
Mas o difícil dessa história é (falo como “psi”) é o que chamamos de ler esse trabalho. Quando coletivo, o espaço inventa o que chamamos de texto, que não é exatamente as conversas que se produzem, mas o encadeamento de assuntos, desejos, ações e interações que podem dizer se aquelas pessoas formaram um grupo ou foi uma reunião de interesse comum. Sim, essa diferença é clara, mas não é fácil identificá-la. Essa identificação é a leitura.
Alguns grupos trabalham juntos. De um jeito diferente do espaço do meu Brechó, também produzindo Moda. E, como o meu, imagino ter um desafio primordial: formar um texto coerente, que as pessoas entendam, e que desperte algum sentimento a terceiros.
Depois de muitos contratempos (um eterno desencontro nas datas dos desfiles) tive a chance de assistir ao Texto da Casa de Tolerância na passarela externa do Donna Fashion Iguatemi. As Gurias apresentaram uma amostra grátis do que virá na próxima coleção chamada “Em Polvorosa”. O uso de referência histórica bem definida e de apuro intelectual mostrara um desfile com forma, um texto coerente que a gente lê. Não é necessário gostar para saber o que Casa de Tolerância tem para dizer. Eu ainda por cima gosto; acho muito bom (estética e qualidade técnica). Mulheres modernas vestindo-se do que restou de feminino no pós-guerra: exuberância desesperada para apagar a mágoa dos traumas do sangue. Dramatismo? Não sei. Só sei que lembrar desse período histórico, até mesmo no Brasil (que teve parca participação) representa uma época de elegância extrema, de roupas novas ou velhas, mas que buscavam expressar uma boa condição (financeira, cultura e todas as que consigo imaginar) pela roupa; e pobre dos que não conseguiam essa proeza. Casa de Tolerância passou essa sensação: a boa roupa, o cuidado do corte, da expressão das modelos, da música. As brincadeiras histriônicas e o sapato gasto do modelo nos lembram que isso é Moda e que esse tema não é mais pesado por que Casa de Tolerância soube brincar.
E é essa a beleza da Casa: o texto do diálogo bem-humorado de três mulheres (Amanda Dorneles, Nina Godinho e Ianny Bastos) que é absolutamente possível. Coletivo de moda é algo inovador, mas só podemos dar o aval ao perceber em suas criações algo a ser lido: um processo grupal. Não quero imaginar as brigas e risadas das Gurias no processo de criação, na relação com fornecedores, fotógrafos, enfim: isso é delas. O que é lindo e nosso é “Em Polvorosa”.

14.4.10

considerações I

Meu interesse pela Moda, assim como as Gurias do Modamanifesto, sempre foram para além do óbvio. Curto mesmo o tema para além do que seu mote principal acarreta: consumo. Nunca disse que penso-a fora do espaço do capitalismo. Nunca entrei nessa ceara. É um tanto perigoso, pois é tema bastante profundo e requer minha atenção de pesquisa e longo texto. Mas penso sim ALÉM do consumo. Moda está dentro não estritamente neste domínio.
Por onde meu caminho passa? Pelo caminho de Ana Mery De Carli: o sensacional. Busco nas passarelas, nos editoriais, na rua, imagens que transbordem sentido e que, por isso, afetem as pessoas. Me entedia a foto pronta para o consumo; a modelo que exibe uma emoção já prevista e vivida por vários setores da sociedade. O que vivemos não nos é mais surpreendente. Isso não me interessa. Como Lenine logo abaixo exaltado no outro post.
Difícil achar na produção de moda regional brasileira (com raríssimas exceções) algo que nos afete assim. Quando existe precisamos garimpar com lupa potente, pois não interessa à grande mídia ligada estritamente ao consumo. E também pq todos precisam viver, comer, e fazer moda assim requer sacrifícios. Criação é dureza sim.
Na semana passada vi na passarela no evento comercial Donna Fashion Iguatemi a criação (que já conhecia em outros espaços) de Greice Antes.
Em “Tiro” Greice não atira o Tiro violento; a estilista brinca com o tira-põe do vestuário em cores quase infantis (alegres) no limpo algodão. Só faltava cheirar à alecrim. Belo. Puro. Sensacional. Não há roupa que se Tire sem despudorar-se; mas a estilista propõe que o Tiro seja vestir, mesmo que o Tiro fure sutilmente (com muito pudor e elegância) o tecido. O modelo apresentado dessa coleção é lindo. Por ventura encaixa-se perfeitamente no estilo que me identifico. Mas isso é apenas motivo para eu achar Greice lindinha além de competentíssima, que é o que importa.
Em “Linha” a elegância pesada de Iberê surge lascando as menininhas. É chique, impiedoso. Greice veste mulher forte. A modelo soube portar-se, foi belo. Quem conhece a obra de Iberê Camargo sabe dessa dureza, desse sentimento palpável que poucos parecem suportar (na obra). As telas chegam a ter volume tal o peso da tinta precisa carregar para expressar o que precisou ser dito sobre o homem contemporâneo a Iberê. Greice capturou isso e fez uma mulher potente. Batom vermelho (agora não recordo, mas só consigo imaginar essa cor na boca da modelo), unhas bem feitas, sapato alto e caminhar firme e, é claro, elegante.
Eu ainda vou desejar, vou sonhar com outros cenários para a moda da cidade onde vivo. Foi esse o sonho de Alice de Carroll (tema do evento) aliás. Um espaço onde Greices possam mostrar em passarelas tão fantásticas quanto os Tiros que não me violentaram e os Iberês que mostram elegância e sofrimento compatíveis, suas criações para quem usa ver.
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NoDerivs 3.0 Unported License.