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19.7.17

Sobre roupas, desamparo, psicanálise, Foucault

"Os recentes movimentos de liberação sofrem por não poderem encontrar nenhum princípio em que basear a elaboração de uma nova ética." Foucault, 1983

Foucault falava aqui sobre sexualidade. Mas poderia estar falando sobre o desampado ou mesmo sobre nossa relação com o consumo. 

A partir da possibilidade do aumento do consumo no nosso país a roupa ganhou muito mais espaço. Pouco se discute o impacto do consumo de moda da economia e muito menos na subjetividade.

Na clínica psicanalítica, na consultoria de estilo, nas ruas, notamos a dificuldade das pessoas em lidar com o modo como passaram a consumir. O consumo como resposta para angústias não resolve, não possibilita entender o que produz esse sofrimento. 

Olhar para nosso desampado, seja como for, é dar chance para a invenção de novos modos de vida que não passem somente pelo consumo; entre eles a roupa. 

A liberdade do consumo de moda pode ser tão engessadora como usar um uniforme. Tudo podemos vestir, mas como vestir ao meu modo? O sentido de ética aqui é encontrar em nossas experiencias no mundo (que incluem o próprio guarda-roupa) algo que nos toquem com ele. 

21.4.17

SÉRIE "HISTÓRIA DE BRECHÓ" vol.2 Maria Sem-Vergonha

A primeira postagem dessa série saiu dia 07 com o brechó Casa da Traça. Hoje o blog abre a página para o Maria Sem-Vergonha Brechó, o brechó com nome de flor, mas também de qualidade de melher determinada, que não se preocupa com a opinião alheia. Segue depoimento redigido por uma das sócias, a Solange. A outra é a Simone.


O Maria Sem-Vergonha brechó nasceu no dia 19 de março de 2009, ocupando o mesmo berço do Spazio Brechó, na Osvaldo Aranha.
Minha sociedade com a Simone se formou quando dividimos a ideia de abrirmos um negócio em conjunto, bem antes daquele ano.  Dentre as opções levantadas estava um brechó infantil, visto que poucos existiam na cidade, caracterizando uma oportunidade de negócio. Mas não poderia ser um brechó qualquer. Tinha que ser um parecido com o Spazio, para mim um modelo a ser seguido pelo fato de ser moderno, diferenciado.
Certo dia, olhando os classificados da Zero Hora eis que me deparo com o anúncio de venda do Spazio. Não acreditei e imediatamente liguei para a Simone. Sabia que aquela seria a a oportunidade das nossas vidas. No dia seguinte, lá estava eu negociando a compra do ponto com a Duce. Amor a primeira vista.
Assim, planejamos a nova loja contemplando produtos infantis e adultos, só para "meninas". Fizemos o Plano de Negócios e uma linda inauguração. Com o tempo deixamos de trabalhar com peças infantis. 
Minha formação é em Publicidade e Propaganda, e a da Simone é Magistério. Ambas tínhamos experiências no comércio. Eu particularmente fui criada dentro de uma loja e jamais imaginaria que minha maior satisfação pessoal pudesse estar à frente de um balcão, mas também usufruindo dos conhecimentos e experiência de quase 15 anos na publicidade.



Fecho com meus pitacos...
O Maria Sem-Vergonha também é um estabelecimento onde eu levei turmas de cursos de extensão sobre brechós. Minha escolha se deu pelo modo preciso com que a Solange e a Simone escolheram trabalhar. A seleção das peças de dá de forma organizada, uma vez ao mes, com agendamento de clientes. Elas tem critério e comprometimento com ele e para com suas clientes. Há um estilo claro na loja e o acesso é ótimo. O atendimento é excelente, respeitoso e cuidadoso. 

7.4.17

SÉRIE "HISTÓRIA DE BRECHÓ" vol1 - Casa da Traça

Começa aqui uma série nova: História de Brechó. A proposta é contar a história, motivos, condições que xs donxs de brechós tem para contar. São histórias de vida, necessidades, impasses, desejos, modos de ver o trabalho, a moda, o mercado e também sua própria vida. 

Minha proposta é que possamos conhecer esses sujeitos que vão na constramão da moda. Enquanto a voz de ordem é o consumo higienizado, sem história, memória da cultura de moda, xs donxs desses estabelecimentos, mais ou menos envolvidos nessas questões, tem no seu negócio o maior potencial para moda sustentável: um produto novo aos olhos dx cliente, mas que segue durando no mundo, sem descarte definitivo. 

Com o tempo teceremos articulações, e todas contribuições, comentários: mais depoimentos são bem-vindos. Entender as demandas do setor é uma forma de potenciaizá-lo, tanto nas queixas dxs clientes, mas fundamentalmente na manutenção do desejo dessas pessoas envolvidas no processo. 

O primeiro brechó a me entregar seu depoimento foi o da Babi, a Casa da Traça, ali na Independencia, em Porto Alegre. Ah, começaremos com os locais que conheço, pois gostaria de poder tecer meus próprios comentários, mas aos poucos vamos avançando em outras contribuições pra além dessas fronteiras. 

Segue o depoimento da Babi:


Oi Helena

Segue um pouqinho da história da Casa da Traça.

A Casa da Traça começou de um sonho, mas também da identificação de um nicho de mercado que era deficitário na época, em 2008, na cidade de Novo Hamburgo/RS, juntei pouco dinheiro e muita disposição, e iniciei a loja.

A paixão pelas roupas começou ainda criança,no ateliê de costura de minha mãe, cresci entre tecidos, linhas e revistas Manequim, e quando adolescente descobri um universo alternativo, de bandas, filmes e arte, que me encantou e me fez conhecer os brechós, e o garimpo, ainda para fins pessoais.

Ao sair de um emprego em 2008, com 21 anos, peguei o pequeno FGTS e resolvi criar a Casa da Traça, nunca havia trabalhado no comércio, ou estudado administração e afins, mas a Internet foi uma grande aliada, pesquisei referências, informações burocráticas, marcas, locais de garimpo, entre outras coisas, o que sigo fazendo até hoje, quando sinto necessidade de ampliar os horizontes, expandir o negócio, e buscar novas ideias.

Em 2010 mudei para Porto Alegre, para o ponto atual, e muito já evoluímos desde então, segmentei a loja para o Vintage e ampliei o setor de moda autoral/alternativa, assim atingindo públicos distintos, mas que se complementam. Com as mudanças atuais consegui firmar a loja como um negócio de lucros sólidos, em termos módicos, mas que permite que o sonho continue, sem desmoronar pela falta de grana e planejamento inicial.

Ainda tenho muitos sonhos, muitas ideias, minha cabeça segue fervilhante, e aos poucos vou conseguindo colocar em prática, acabamos de completar 9 anos de loja, ainda somos "infantes" e assim queremos permanecer, com sorrisos e corações abertos, mas com olhos e mentes atentas, para nos mantermos firmes no mercado, sem esquecer do carinho pelas roupas e pelas pessoas que as vestem.

Acho que esta é a Casa da Traça, um negócio, mas repleto de ideologias e sonhos pessoais, tanto de quem a criou quanto de quem passa por aqui.

Bjs e obrigada pela oportunidade.

Babi Andrade




Queria fechar com uma contribuição. Ministrei alguns cursos de extensão sobre brechós e levei algumas turmas lá na Casa da Traça. Todas as vezes que a gurizada chegava lá a Babi dá um jeito de nos receber. Mas não é só dar boa tarde e fique a vontade; ela conta esta história, cada vez com um detalhe vivo, uma história nova que vive no cotidiano da loja. Este espaço é assim, um business sim, pagando o trabalho de sua dona, mas mais do que isso, traduzindo sua vontade de levar tudo isso adiante com atenção e cuidado. 

Eu quem te agradeço Babi. 

16.3.17

MAIS CRUZAMENTOS ARTE-MODA

Sigalit Ladau é uma artista israelense cujo trabalho é tocado pelo contato com o Mar Morto e o sal.

Em 2014, inspirada por uma peça de teatro, onde a personagem é encorporada pelo espírito de seu amado,  reconstrói o vestido do figurino e o submerge nas águas do Mar Morto. A roupa passou por processo de salinização transformando-a estética, estrutural e funcionalmente.

"A noiva de sal" foi o nome dado a obra quando pronta, dois anos após ser iniciada. O processo todo foi observado a cada 3 meses por meio de registros fotográficos e, ao final, exposto no Marlborough Contemporary de Londres. 

A arte abre portas, janelas, questões... O vestido fabricado para a obra ainda é figurino? Deixa de ser roupa? Alguma vez esta peça pode ser chamada de moda? Que efeitos o tempo tem sobre os objetos?

Estas são algumas das perguntas que me ocorreram ao ver a obra, que pode ser vista neste vídeo. Para conhecer mais sobre as obras da artista acesse o link.

Fonte: updateordie.com e divaholic






12.3.17

NEM RECATADA, NEM DO LAR, MAS DA CULTURA

A roupa, assim como inúmeras manifestações culturais, é elemento antropológico que nos dá suporte para conhecer povos, seus modos de organização social, hierarquias, como lidam com afetos, etc. 

Diminuir a relevância que um vestido tem sobre um discurso de um/uma líder é tentar fazer uma simplificação impossível. Cada aspecto de uma cultura se costura a diversas outras produzindo um discurso de um tempo-espaço coletivo. 

Os casamentos são práticas usuais e diferentes civilizações e em diferentes comunidades étnicas. Cada etnia preconiza os modos como esse ritual será. 

Achei um site que organizou imagens do Instagram de inúmeros casais heterossexuais em trajes de casamento típicos de suas etnias. Não fiz a conferencia da veracidade desta pesquisa de imagens, mas a proposta aqui é somente abrir os olhos para tamanha riqueza de pluralidade que o mundo mantém até hoje no que tange a indumentária de rituais sociais. Vivemos em um mundo pós-moderno, mas em estágios diferentes em espaços geográficos diferentes. Em muitos locais ainda é possível perceber marcas visuais importantes que expressam que os noivos só poderiam ser de lá. 

Dá o que pensar, não? 


26.8.16

GARIMPO

Este blog vai além de incentivar práticas para um vestir sustentável. Minha ideia sobre a moda e o vestir passa pela noção de que somos seres da cultura, da palavra. Isto quer dizer que tudo o que produzimos, usamos e consumimos é CULTURA. 

O esforço em falar e falar, escrever e escrever sobre nossos hábitos carrega o intuito da não-repetição de erros, de pensar sobre o que já fizemos e como podemos pensar em práticas do vestir cada vez mais implicadas com o mundo em que vivemos. 

A sustentabilidade é só uma palavra se não tomarmos nossas experiências de erros e fracassos, nossas histórias e expectativas de futuro como pontos a serem costurados.

Há tempo atrás achei ouro em pó, hehehe. Uma expressão para minha reação ao ver ESTE SITE-CATÁLOGO de uniformes de companhias aéreas de todo o mundo. É um trabalho minucioso, incrível!!! 

Mas o atraso (conheço-o há anos!!) em compartilhá-lo não vem com arrependimento. Refazendo a busca do link acho mais ouro! Este artigo que trata com muita competência da cultura de moda deste recorte profissional.

Poder pensar em como as aeromoças e, mais tarde, comissários de bordo têm se vestido, é falar sobre a história da aviação, a relação das nações com esta área e outros tantos atravessamentos como o econômico, a moda, etc. 


24.8.16

EU FUI - I Mostra de Moda Sustentável da BPW

A BPW é uma organização internacional focada no empoderamento feminino.

Fui convidada pela Lessandra Fraga, da Modele-me e Clássica com Pimenta para participar de um bate-papo na I Mostra de Moda Sustentável da BPW.

A ideia do evento foi apresentar ao público como a moda sustentável é viável e real. Foram exibidos estandes com show room de algumas marcas regionais, um desfile com stylist da Modele-me, e o bate-papo. Ele foi mediado por Michele Pereira e contou com minha presença além de Mariana Kalil e Lucimara Pereira. A primeira da Modele-me, a terceira jornalista do grupo RBS e a última do SEBRAE-RS.

Foram apresentadas marcas como Aurora, Contextura, Alessandra Giordani, Marinoca, Eliana Colognese, Carina Brendler.

O bate-papo levantou a questão sobre nosso papel na produção, crescimento e educação para práticas sustentáveis.

 O bate-papo.
 Eu e Marinelsa Gayer, atual presidente da BPW

Imagens do desfile

17.8.16

EU FUI - Fórum RJ

"EU FUI" é uma nova sessão (que na prática já existia) aqui do blog. Não sou onipresente: taaaantas coisas, eventos, cursos, palestras, discussões, fóruns que eu gostaria de ir e não consigo... Mas o foco é pensar em fazer esticar o que se faz, valorizar cada passo da vida, do trabalho. Isso mesmo: estou compartilhando algo em que pude estar presente e que rendeu um material para vocês apreciarem também. 

Então lá vai... 

Logo após a defesa de minha dissertação de mestrado enlouqueci e "fugi" pro Rio. Mas os motivos foram incríveis: Fórum RJ do MinC e conhecer a Malha.cc

O que é isso tudo? 

Após inserção no Ministério da Cultura a pesquisadora e editora Kathia Castilho passou a organizar uma série de Fóruns (RJ e SP) para apresentar o Plano Setorial da Moda, projetos que mostram sua (in)viabilidade, aplicação. Um espaço para o setor da moda se ouvir, queixar-se, levantar demandas, valer-se das promessas do plano. 

No Fórum RJ o tema foi patrimônio e memória. Aconteceu no Museu Histórico Nacional (!!!!) com visita técnica ao futuro Museu Zuzu Angel (!!!). 

O Fórum no Museu Nacional contou com duas mesas com presenças do diretor do Museu e: Maria do Carmo Rainho, Márcia Bibiani, diretora do Museu da Baronesa e Michelle Benarush, Hildelgard Angel, Márcia Merlo e Kathia Castilho. 

Ficou claro o quanto precisamos avanças nas políticas públicas para o setor no que tange ao resgate histórico de moda e indumentária do país. Faltam recursos, mão de obra, quebra de estigmas. A moda ainda é tomada como futilidade e não como produção cultural de um povo. 

Seguem registros dos encontros e da linda visita ao futuro Museu Zuzu Angel. 

Maria do Carmo Rainho na apresentação de sua pesquisa
 Apresentação do projeto do Museu da Baronesa
 Hilde Angel apresentando o projeto do Museu Zuzu (emoção pura)
 Detalhe da fachada da casa.

 Fotografia histórica: as duas diretoras de museus de moda do RJ - Hilde e Márcia Bibiane
Olha eu ali ao lado da Kathia Castilho!!

 Para assistir as mesas do Fórum RJ clique aqui
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